Olá, Escritor!

Você já assistiu ao novo filme de Jordan Peele, “Us” (Nós)? Se não assistiu, deve procurar agora mesmo a sala de cinema mais próxima e ir conferir!

Jordan Peele recebeu o prêmio de melhor roteiro original pelo seu filme de estreia, “Corra”, no ano anterior, sendo o primeiro realizador negro a receber o reconhecimento da Academia nesta categoria. E o prêmio é mais do que justo!

Numa indústria pautada por fórmulas há muito consagradas, Peele mostra, junto com realizadores como Daren Arenovsky, Alfonso Cuarón e Wes Anderson, que ainda há espaço para um cinema mais autoral dentro de Hollywood.

Mas, bom, vamos ao que interessa. Escolhi falar desse filme, porque considero que, enquanto narrativa, ele tem muito a ensinar a nós, escritores.

Já falamos várias vezes aqui sobre a diferença essencial entre ficção e realidade. Enquanto a nossa realidade é caótica e incontrolável, a ficção acontece dentro de um espaço controlado.

Enquanto a realidade pode passar dias, semanas, meses sem oferecer nenhuma novidade, a ficção demanda movimento contínuo e a produção de um sentido maior.

Isso significa que, para que uma narrativa exista, alguém (um artista, um escritor, um cineasta) precisou fazer uma série de escolhas estéticas para que ela possa produzir o sentido desejado.

Ao contrário da nossa vida, podemos (e devemos) escolher exatamente o que acontece na nossa história.

E boas histórias são sempre aquelas que apresentam o que chamamos de coesão narrativa. Uma história coesa é aquela que não desperdiça nenhum elemento narrativo.

Em outras palavras, é aquela que pondera cada detalhe, pensando em, dessa forma, reiterar seu sentido maior. E Peele faz isso magistralmente.

Vamos ver, em 5 tópicos, como ele consegue criar uma obra coesa e original.

1) Trabalhe contrastes na sua história

Em “Us”, uma família de classe média vai passar as férias em uma casa na praia. Mas, logo no começo da estadia, são surpreendidos por um evento sinistro. Uma família, idêntica a eles, invade a casa. A partir daí, o que seriam umas férias no paraíso vai, aos poucos, se tornando um enorme pesadelo.

Com a cena da chegada da família-sombra (vamos chamá-la assim), começamos a entender que este é o sentido maior que o diretor que dar ao seu filme: a ideia que todos nós temos um duplo, um lado sinistro, uma faceta obscura. A família é exatamente igual a eles, mas veio das sombras, de uma estranha região subterrânea.

Sabendo que este é o tema central de sua história, Jordan Peele usa todos os elementos ao seu alcance de modo consciente e propositivo. Afinal, como sempre reiteramos aqui no Carreira Literária, um artista precisa ter sempre uma INTENÇÃO.

Ao longo do filme, ele trabalha diversos elementos que reiteram a ideia de duplo: a presença de coelhos, que são animais usados pela ciência para testes com clonagem. A cena em que a personagem de Lupita Nyongo vê o relógio marcando 11:11. A referência ao Lago dos cisnes, o conhecido balé dramático que explora a temática do duplo. A oposição entre a vida subterrânea e a vida na superfície e dezenas de outros elementos.

Resumindo, contraste gera coesão. E a coesão deve ser uma das maiores buscas do artista.

2) Domine os gêneros em que escreve

Antes de iniciar sua carreira como realizador cinematográfico, Jordan Peele produziu e estrelou muitos filmes e séries de comédia, como Wanderlust (Viajar é preciso) e Key & Peele. Recentemente, ele produziu também “Toy Sotry 4”.

Mas, em suas entrevistas, ele sempre falou de uma segunda paixão: os filmes de horror.

E de tanto estar em contato com essas narrativas, Peele tornou-se um mestre desses dois gêneros. Assistindo aos seus dois filmes, percebemos que ele sempre sabe a hora de provocar o riso, a hora de quebrar a tensão com uma piada, a forma de potencializar o medo do espectador com um ruído ou música etc.

Cada gênero literário possui seus códigos e, até para subvertê-los, coisa que Peele faz muito bem, é necessário que se conheça suas convenções.

3) Não vitimize os seus protagonistas

Seus protagonistas podem ter histórias difíceis (como acontece com o personagem principal de “Corra”). Mas nunca os trate como vítimas.

Um bom protagonista precisa ser ativo, precisa usar os seus traumas para se fortalecer.

No começo de “Us”, vemos que a personagem de Lupita Nyongo não está nada confortável de estar naquela casa. Sabemos que ela teve uma experiência traumática quando criança e entendemos que essa talvez seja a causa de seu medo…

Entretanto, quando o perigo se estabelece, com a chegada da família-sombra, a personagem se mostra ativa e corajosa. Diante da ameaça à sua família, ela é capaz de deixar todas as suas fraquezas de lado e fazer o telespectador torcer para ela até o final do filme!

4) Trabalhe uma Trama Profunda na sua história

Bom, antes de mais nada, deixa eu te explicar o que entendo por trama profunda.

É mais fácil entender esse conceito quando fazemos sua contraposição com a ideia de trama visível.

A trama visível é aquela que acontece na superfície da história, aquela que vemos, literalmente. Em outras palavras, é a cadeia de eventos da sua narrativa: as cenas de ação, os diálogos etc. Enquanto que trama profunda é a mensagem, as entrelinhas da sua história. Aquilo que fica com você depois que assistiu ao filme ou leu o livro.

Um ótimo exemplo para entender o conceito de trama profunda são as fábulas. A história visível de “Chapeuzinho vermelho”, por exemplo, pode ser definida como: Uma garotinha precisa levar um cesta de comida para sua vovó doente, acaba pegando um atalho que havia sido avisada que não deveria pegar e, dessa forma, atraindo um lobo perverso que habita a floresta.

Mas podemos dizer que a trama profunda da história é: é importante entender que há certos mistérios na vida que não devemos desafiar e que o medo é também importante para a nossa sobrevivência.

Em “Us”, claramente temos essas duas dimensões da trama. Podemos dizer que a trama visível é uma família indo passar as férias na praia e sendo surpreendida pelo seu duplo.

Mas a trama profunda vai muito além. Há uma mensagem muito clara em “Us”, que eu não vou dizer aqui para não dar spoiler.

Mas pense nos filmes que te marcaram… Com certeza o que te marcou neles foi a trama profunda e não a trama visível.

Boas histórias não são apenas sucessão de ações. Eles precisam dizer algo além do visível.

5) Defina uma constelação de referências para a sua obra

Nenhum autor trabalha sozinho. Ele trabalha no constante diálogo com as referências que possui. Em uma entrevista, Peele revelou que passou uma lista de filmes de comédia e horror para a atriz Lupita Nyongo, para que ela captasse a atmosfera que ele queria dar ao seu filme.

Ou seja, certamente, alguém antes de nós falou coisas interessantes sobre o tema que queremos trabalhar. E ter referências é fundamental, inclusive para termos mais chances de criar algo original.

Peele faz um filme que é completamente repleto de referências (vemos alusões explícitas às histórias de Stephen King, ao filme “Funny Games”, a filmes de comédia como “Esqueceram de mim” etc), mas que consegue ser único.

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