Trinta e seis escritores e um desafio: escrever um conto com a temática da loucura. Assunto vastamente abordado na literatura, mais do que uma preocupação filosófica, a loucura talvez seja, para o artista, uma espécie de realidade, de gosto amargo que tantas vezes tem de experimentar. Afinal, não é breve a lista dos autores que tiveram uma relação íntima com o delírio e a insanidade.
O conhecido psicanalista francês Jacques Lacan tinha a teoria de que Ulisses, a obra-prima de James Joyce, havia sido uma tentativa última do escritor irlandês de se inscrever na realidade, driblando um transtorno psicótico. Virginia Woolf, ao que tudo indica, além das depressões severas, também sofria com a esquizofrenia. Edgar Allan Poe levava para os seus contos e poemas o horror que lhe assombrava, e foi diagnosticado, depois de sua morte, com transtorno bipolar. E a lista não para por aí: Ernest Hemingway, Anne Sexton, Philip K. Dick, Tennessee Williams, Hans Christian Andersen… Não é nada modesta a lista de escritores “fora da curva”, que usaram a escrita como forma de encontrar sua sanidade, deixando para nós — por mais contraditório que possa parecer — as mais lúcidas e luminosas visões de mundo.
Aqui, nesta coletânea, a loucura está em toda parte. Nos sanatórios, mas também, e principalmente, dentro de casa, no trabalho, nas relações amorosas e familiares. O que esses textos nos mostram é que seria ilusão pensar que a loucura é uma exceção, um pathos que exclui a sanidade. Antes de mais nada, ela faz parte de nós e, como talvez diria Nietzsche, não se trata de afastá-la para chegar à razão, mas, sim, de aceitá-la para que tenhamos uma compreensão maior de nós e do mundo.